Os derrotados da Copa

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Os derrotados da Copa

Para eles, a Copa já está perdida. Centenas de famílias pernambucanas estão recebendo cartão vermelho e sendo obrigadas a deixar suas casas. À medida que a maior competição esportiva do planeta se aproxima, aumenta o ritmo das obras de acesso à Arena Pernambuco, que receberá cinco jogos da Copa do Mundo, nenhum do Brasil. Imóveis são varridos do mapa. Os moradores reclamam dos baixos valores oferecidos pelo poder público. Os que não entram em acordo enfrentam drama ainda maior: são expulsos do mesmo jeito e sem receber um tostão até que o processo seja concluído. Levantamento da Articulação Nacional dos Comitês Populares (Ancop) revela que, no Brasil inteiro, o número de desalojados chega a 250 mil.

Silvânio Manoel da Silva, 42 anos, trabalhou a vida toda para erguer uma casa. Botou tijolo em cima de tijolo e conseguiu, há sete anos, ter um teto para chamar de seu, no Loteamento Cosme e Damião, na Várzea, Zona Oeste do Recife. Mas havia a Radial da Copa no meio do caminho, corredor com 6,3 quilômetros de extensão que vai ligar a Avenida Belmino Correia à BR-408 e à Arena Pernambuco, passando pelo Terminal Integrado (TI) Cosme e Damião e cruzando os municípios de Camaragibe, São Lourenço e Recife. O sonho de Silvânio levou de goleada. O muro está riscado ao meio. Significa que da linha branca até a frente da residência tudo vai abaixo. Até janeiro, só vai sobrar o quintal. É lá, no aperto, que ele vai recolocar tijolo em cima de tijolo para reaver o sonho.

O governo estadual ofereceu R$ 35 mil. Ele quer mais. Não sabe, porém, se vale a pena comprar a briga judicial. “A gente estava ciente há mais de um ano, mas não faz nem três meses que chegaram e passaram a tinta no muro, avisando que teríamos que sair. Estou tentando ver se aumentam a indenização, mas meu tempo está acabando. É ruim ir para a Justiça porque aí não pagam”, afirma. Oito famílias no entorno já tiveram que sair. A vizinhança, agora, é formada por caminhões, tratores e escavadeiras. “Essa Copa tirou nossa paz”, resume.

O recomeço soa ainda mais difícil para seu pai, o aposentado Severino Manoel da Silva, 74, que em alguns dias verá a casa espaçosa, de três quartos, virar pó. Severino perdeu a esposa, diabética, dois anos atrás. A vida, desde então, nunca mais foi a mesma. “Como é que eu vou começar tudo de novo sem ela?”, indaga, enquanto dá de comer aos oito gatos.

A dona de casa Josefa Barros, 60, tinha um sítio com quase 20 árvores, entre mangueiras, bananeiras e jaqueiras. Agora, só tem uma casa sem sombra atrapalhada pelo vaivém dos tratores. O lugar onde ficavam as plantações hoje é Radial e saudade. “Aqui parecia interior. Cada um tinha seu sítio, cheio de árvores, uma tranquilidade só. Ficou terrível. Minha casa ficou, mas o resto foi embora”, lamenta ela, há 20 anos no local. A cunhada, cita, está morando de favor enquanto encara a peleja judicial por não ter aceitado a quantia oferecida pela Secretaria-Executiva de Desapropriações, vinculada à Procuradoria-Geral do Estado (PGE).

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